Paisagem da queda, o céu e a terra

Elefante Centro Cultural, 2017

Paisagem da queda, o céu e a terra apresenta a individual da artista Isabela Couto. Trata-se de um conjunto de desenhos e aquarelas, na fronteira com exercícios de instalação, objetos e vídeo. Divididas em duas partes, a paisagem do céu, no primeiro andar, e a terra, no térreo, conformam categoricamente o "aéreo" e o "subterrâneo". De maneira pontual os trabalhos partem do interesse da artista sobre o desconhecimento de possíveis vidas existentes. Estejam elas sob as camadas da terra ou a nossa volta.

Vida e morte, alto e baixo, superfície e interior profundo são algumas das imediatas e confortáveis associações. A partida para o caminho em se pensar além está na queda. A queda da própria razão sobre as verdades. Quais as determinações para pintura de aquarela? De qual história fazem parte? Um sutil absurdo, esse traço surreal, com a qual Isabela lida, apresenta-se por meio de feijões com cabelos e perucas suspeitosamente erotizados. Nós estamos aqui apenas para admitir que ao sensível é imprescindível o espanto e não o conforto.

Uma hipotética entrevista 'aconteceu' entre curadora e artista.

Paisagem

Quantos desenhos preciso fazer sobre o desenho para chegar no profundo dele? Não se aprende muito, nem que se ensine tudo. Falar de coisas que são ensimesmadas é o que vale quando a realidade oferece coisas invisíveis para se contar. Vê-se uma cena. Porém, uma paisagem aparece quando não se vê. Eu não vi nada. Ao não ver, naquilo que enxergava, passei a respirar o que se apresenta apenas em possível adivinhação. Com quantos caminhos se faz uma história? Por que se olha em cima para questionar a espera? Há muita coisa sem merecimento de virar assunto, mas que, se juntar com pedacinhos de outros desimportantes ou conhecidos por aquilo que só fazem mesmo, passam a ganhar inteligência por não fazerem nada, a não ser por existir graciosamente.

Queda

A preferência foi pela demora. Porque a demora faz prestar atenção no fôlego que se tem. Sim, aqui pode-se constatar bem mais que 18 mil inalações de todo primeiro dia. A insistência... quem quiser pode levar. Desprender para chegar embaixo. Profundo acaso rarefeito. A curta duração de uma viagem por queda corresponde ao insight que ocorre e desloca a atenção.

Céu

Agorinha mesmo. Esse tudo descartável. Será que caem? O que fica dessa queda? Restarão somente perucas. E com elas não se farão nada. Sem uso, apesar de existentes, permanecerão sem vida. O que germina depois da queda ainda é descaminhado. É preciso se repetir a mesma quantidade de tempo da trajetória do céu à terra, naqueles primeiros passos das trilhas, para daí perceber se algo crescerá.

Terra

Do que sei de mim é: nada fácil. Aprofundo de mundo, porque chegar não é o fim. Só sei que se indo no caminho, ao caminho não se chega. Escavar diz mais da imaginação do que da verdade de se levar a terra sob as unhas. Assim, cavar, cavar, encostar camadas é avistar vida e morte. Seres que vivem apenas no limite razoável porque o desdém ajuda a se manter um vivo subterrâneo. De onde vem a vida nesse mundo? Quem sabe, aqui, se rocha, é muito mais a vida verdadeira pela imortalidade da paciência.

texto e curadoria

Cinara Barbosa

 

 

Fall landscape, the sky and the earth

Elefante Centro Cultural, 2017

Fall landscape, sky and earth features the individual artist Isabela Couto. It is a set of drawings and watercolors, bordered with installation exercises, objects and video. Divided into two parts, the landscape of the sky on the first floor and the ground on the ground floor categorically conform the "aerial" and the "underground". In a specific way, the works depart from the artist's interest in the lack of knowledge of possible existing lives. Whether they are under the layers of the earth or around us.

Life and death, high and low, surface and deep interior are some of the immediate and comfortable associations. The departure for the way in thinking beyond is in the fall. The fall of reason itself into truths. What are the determinations for watercolor painting? Which story are they from? A subtle absurdity, this surreal trait, with which Isabela deals, is presented through beans with hair and wigs suspiciously eroticized. We are here only to admit that to the sensitive is astonishment rather than comfort.

A hypothetical interview 'happened' between curator and artist.

Landscape
How many drawings do I have to make on the drawing to get deep inside it? You do not learn much, or you teach everything. Talking about things that are self-absorbed is what counts when reality offers invisible things to tell. You see a scene. However, a landscape appears when you do not see it. I did not see anything. When I did not see, in what I saw, I began to breathe what appears only in possible divination. How many paths does a story take? Why do you look up to question the wait? There is much that is not worthy of becoming a subject, but that, if you join with bits of others that are unimportant or known for what you only do, you gain intelligence by doing nothing except by grace.

To Fall

The preference was for the delay. Because the delay makes pay attention to the breath you have. Yes, here you can see more than 18 thousand inhalations of every first day. The insistence ... anyone who wants can lead. Unhook to get underneath. Deep rarefied chance. The short duration of a trip by fall corresponds to the insight that occurs and shifts attention.

Sky

It really hurts. This everything disposable. Will they fall? What remains of this fall? They will only be wigs. And they will not do anything with them. Unused, though existing, they will remain lifeless. What germinates after the fall is still misplaced. It is necessary to repeat the same amount of time from the path of heaven to earth, in those first steps of the tracks, to see if something will grow.

Earth
What I know of me is: not easy. World-wide, because arriving is not the end. I only know that if you go on the road, you do not get there. Digging says more of the imagination than of the truth of taking the earth under the nails. So digging, digging, layering is seeing life and death. Beings that live only at the reasonable limit because disdain helps to keep one alive underground. Where does life come from in this world? Who knows, here, if rock, is much more the true life by the immortality of the patience.

Text and curator

Cinara Barbosa